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Em novo aperto monetário, Copom eleva a meta da taxa Selic para 12,75% ao ano
Em novo aperto monetário, Copom eleva a meta da taxa Selic para 12,75% ao ano

Postado em: 13/05/2022

Fonte: CNT NOTICIAS

O Comitê de Política Monetária (Copom) definiu o aumento de um ponto percentual na meta da taxa Selic em sua última reunião, ocorrida nos dias 03 e 04 de maio de 2022. Com isso, a taxa chega a 12,75% ao ano, maior valor desde fevereiro/2017 (Gráfico 1). A decisão ocorre em linha com o objetivo do Banco Central de trazer a inflação para a meta nos próximos anos.

 

 

Gráfico 1 –Variação mensal do IPCA acumulado em 12 meses e variação da taxa Selic*

- janeiro de 2015 a maio de 2022

 

 Fonte: Elaboração CNT, com dados do Banco Central do Brasil.

* Os valores da taxa Selic são aqueles correspondentes ao primeiro dia de cada mês considerado no gráfico, com exceção do valor mais recente, lançado no dia 04 de maio pelo COPOM.


A instituição visa retomar o controle inflacionário por meio da desaceleração do consumo e investimento dos agentes econômicos ao tornar mais caro o acesso ao crédito, uma vez que a Selic serve de referência para todas as demais taxas de juros. Isso pode ser visto pelo Indicador de Custo de Crédito (ICC) do Banco Central, que estima o custo médio do crédito de famílias e empresas que tenham feito esse tipo de operação (Gráfico 2). Percebe-se um aumento progressivo do Indicador desde o início do ciclo de alta da Selic, em março de 20211.

 

 

Gráfico 2 – Evolução do Indicador de Custo de Crédito – janeiro de 2015 a fevereiro de 2022

 Fonte: Elaboração CNT, com dados do Banco Central do Brasil.

 

 

 

Cabe notar, no entanto, que o cenário global atual tem influenciado o nível de preços no Brasil, seja pelas restrições nas cadeias globais de oferta de insumos e commodities, frente à ainda presente pandemia de covid-19, seja pelas sanções e complicações trazidas pela guerra na Ucrânia. Sendo assim, a persistência da inflação nacional carrega um componente de incertezas em face da resolução de conturbações externas. De fato, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor

 

 


1 Ver Radar CNT do Transporte – Taxa de Juros Selic, disponível em: cnt.org.br/analises-transporte. 


Amplo (IPCA)/IBGE não tem arrefecido, mesmo depois do início do ciclo de aumento da taxa básica de juros (Gráfico 1).

O IPCA acumulado em 12 meses, indicador usado como referência para medir a inflação, atingiu 11,3% em março de 20222, valor distante do centro da meta, de 3,5% definida para o ano (Gráfico 1). Desse modo, apesar das expectativas, ainda não se concretizou um processo de inversão da tendência crescente do IPCA. Esse cenário é preocupante, pois, por mais que o controle inflacionário interesse a toda a sociedade, o crédito mais caro afeta as operações correntes e decisões de investimento das empresas, bem como o endividamento e a demanda por serviços dos consumidores, o que impacta a economia como um todo, inclusive o setor de transporte (ver Box 1).

Com efeito, o aumento da Selic estimula a compra de títulos financeiros que têm sua rentabilidade atrelada a ela, como os ofertados pelo Tesouro Nacional. Sendo assim, os setores produtivos passam a concorrer com o setor financeiro, especialmente com aplicações em títulos públicos, que possuem baixo risco. Se a arrecadação via emissão de títulos públicos fosse direcionada para investimentos em infraestrutura, em consonância com a regra de ouro3, o setor público contribuiria para amenizar possíveis efeitos do aumento da Selic na desaceleração da atividade econômica. No entanto, cabe ao governo a decisão sobre o direcionamento do montante arrecadado com a venda de títulos.

As expectativas de mercado têm se deteriorado ao longo de 2022. O Relatório Focus/Banco Central de 29 de abril4 aponta para meta da Selic em 13,25% ao final de 2022, 9,25% ao final de 2023, e 7,5% ao final de 2024. Há 4 semanas, as expectativas eram de 13%, 9% e 7,5%, respectivamente. Já para o IPCA, a expectativa de mercado é de 7,89% ao final de 2022, 4,10% ao final de 2023 e 3,20% ao final de 2024. Há 4 semanas, a expectativa era de 6,97%, 3,80% e 3,12%. O centro da meta do IPCA definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para 2022 é de 3,5%, para 2023, 3,25%, e para 2024, 3%. 

2 Ver Radar CNT do Transporte – IPCA Março 2022, disponível em: cnt.org.br/analises-transporte.

3 A regra de ouro constitui-se nos dispositivos legais (art. 167, inciso III da CF; art. 32, §3º da Lei Complementar 101/2000

4 Disponível em: bcb.gov.br/publicacoes/focus [data de consulta: 03 maio 2022].


 

BOX 1 – IMPACTOS DA ELEVAÇÃO DA META DA TAXA SELIC SOBRE O MERCADO DE CRÉDITO

 

A elevação da meta da taxa Selic tende a elevar o custo do crédito para todos os setores produtivos, pois diversas fontes de recursos captadas pelas instituições financeiras para empréstimo são remuneradas pela Selic ou por parcela da Selic (o que é definido em lei ou regulamentação específica) e porque as instituições financeiras passam a buscar investimentos alternativos à medida que a taxa é reajustada.

 

Aquisição de caminhões e ônibus – Finame/BNDES: O Fundo de Financiamento para Aquisição de Máquinas e Equipamentos Industriais (Finame), gerido pelo BNDES e distribuído por meio das instituições financeiras comerciais, tem como objetivo financiar as operações de compra e venda de máquinas e equipamentos de fabricação brasileira. O setor transportador de cargas e pessoas pode se financiar em duas linhas do Finame:

  1. Finame Bens de Capital Aquisição e Comercialização (permite a compra de bens novos de fabricação nacional, incluindo ônibus e caminhões); e
  2. Finame Baixo Carbono (entre outros itens, financia a aquisição de ônibus e caminhões híbridos, a biocombustível, a gás e a tração elétrica e de equipamentos que reduzam a emissão de carbono na atmosfera).

É possível também tomar capital de giro, limitado a 30% do valor financiado.

A taxa de juros para a aquisição de ônibus e caminhões com recursos do FINAME é composta pelo somatório do custo financeiro da fonte de recursos (Taxa de Longo Prazo – TLP, Selic ou taxa fixa do BNDES

– TFB), da taxa do BNDES (fixa) e da taxa do agente financeiro (negociada entre a instituição financeira e o cliente). Cabe destacar que a principal fonte de recursos para as operações do BNDES são aqueles do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) (49% em 2021). Como o FAT é remunerado pela TLP quando aplicado em operações de financiamento, e a TLP é composta por uma taxa pré-fixada + IPCA, as operações com recursos do Finame tendem a se tornar mais competitivas em relação ao Crédito Direto ao Consumidor (CDC).

 

Capital de giro: O crédito de curto prazo tende a aumentar significativamente com a elevação da meta da Selic, tendo em vista a concorrência com investimentos alternativos.

 

Aquaviário – FMM: Desde 1984, o BNDES exerce a função de agente financeiro do Fundo da Marinha Mercante (FMM), com o objetivo de apoiar financeiramente a renovação, ampliação e recuperação da frota da Marinha Mercante. Os recursos do FMM são remunerados pela TLP (lei nº 13.483/2017) e, segundo o BNDES, em 2021, 77% das operações (R$ 24,7 milhões) estavam atreladas a moeda estrangeira.

 

Infraestrutura: Em geral, os títulos de crédito para financiamento da infraestrutura são atrelados ao IPCA, à Selic ou ao CDI. O Boletim Informativo de Debêntures Incentivadas e demais instrumentos da Lei 12.431/2011, divulgado pelo Ministério da Economia em março/2022, mostra que a maior parte das debêntures incentivadas emitidas e dos fundos de infraestrutura têm remuneração fixa, adicionada ao IPCA.

 

Imobiliário e rural: Os depósitos em poupança são a principal fonte de recursos para o crédito imobiliário e para o crédito rural (direcionamento de crédito). Com a elevação da Selic, a taxa de remuneração da poupança se torna fixa, em 0,5% ao mês. A lei nº 12.703/2012 determina que, enquanto a meta da taxa Selic for superior a 8,5% ao ano, a remuneração dos depósitos em poupança será de 0,5% ao mês, e quando a meta da taxa Selic for igual ou inferior a 8,5% ao ano, a remuneração da poupança será de 70% da meta da taxa Selic. Em dezembro/2021, o Copom elevou a meta da Selic de 7,75% ao ano para 9,25% ao ano. Desde então, as retiradas de recursos em poupança têm superado os depósitos. Em março/2022, o saldo em depósitos em poupança foi de R$ 1 bilhão e a captação líquida no 1º trimestre/2022 foi negativa em R$ 40,4 milhões.